Museu da Computação e Informática - MCI

Revista Micro Sistemas
A Micro Sistemas foi a primeira revista brasileira de microcomputadores, o primeiro número saiu nas bancas em outubro de 1981, tinha 40 páginas, a tiragem inicial foi de 10.000 exemplares e vendida por Cr$ 250,00. A MS influenciou a carreira de muita gente. Influência tão grande que até hoje a revista é relembrada com muito saudosismo pelos seus leitores.

A pedido do MCI, o depoimento a seguir foi enviado em janeiro de 2002 por Alda Campos, fundadora e primeira editora responsável da revista. Segundo Alda Campos, assim foi à história da criação da revista Micro Sistemas.


Micro Sistemas - a primeira revista brasileira de microcomputadores (de verdade !)

No final de 1980, um homem chamado Aldenor Campos (meu pai) entendeu a importância que teria a área dos microcomputadores. Na época, ele tinha uma empresa chamada Nabla, prestadora de serviços de programação (o chamado bureau), cujo principal cliente era DNER.

A empresa ia bem, e Campos resolveu investir no setor. Convenceu seus sócios a criar duas empresas: uma (chamada Del) para fabricar microcomputadores, especificamente um clone do Apple; e outra para vender microcomputadores, a Computique, que ele queria que fosse a primeira butique de computadores do Brasil (o que de fato aconteceu).

Ele "dividiu" a empreitada entre os sócios, e pediu-me (recém formada em economia e jornalismo) que viajasse aos Estados Unidos (Califórnia), visitando e fotografando lojas de computador, apurando tudo que eles vendiam e como o faziam, e que depois participasse ativamente dos trabalhos de preparação da Computique, para a qual uma loja fora alugada no shopping Cassino Atlântico, Posto 6, Copacabana, Rio.

E assim foi feito. Durante as obras da Computique, recebi o primeiro "microcomputador" que venderíamos - um HP 85 - e resolvi investigar um pouquinho. Nele, tive contato com a minha primeira linguagem de programação - BASIC.

Após a inauguração, Campos me chamou para uma conversa. A loja não estava vendendo como esperado, pois o público ainda não estava informado, não havia cultura . Ele então me entregou uma pilha de revistas americanas e disse: "Precisamos de algo assim no Brasil. Você é jornalista".

Lá fui eu. Primeiro li tudo, percorri as bancas do Rio, indagando sobre a saída das revistas estrangeiras. Entrevistei compradores e vendedores. Daí convidamos um pioneiro do setor, o norte-americano Wayne Green, publisher de várias revistas, para vir ao Brasil com todas as despesas pagas, conversar conosco. Ele aceitou, e durante os primeiros meses do projeto foi um bom conselheiro para mim.

Após alinhavar um conceito inicial, passamos para equipe. À frente da parte administrativa, Ernesto Camelo, que futuramente viria a ser um dos introdutores do Desktop Publishing no Brasil, com a empresa Textos & Imagens. Na parte de jornalismo, recrutei ex-colegas da ECO (Escola de Comunicação) da UFRJ, alguns dos quais ainda estão no setor. Como repórteres Graça Santos (hoje Sermoud, na IDG Brasil) e Edna Araripe, atuando em assessoria de imprensa. Como subeditor Paulo Henrique de Noronha, hoje diretor de comunicações de uma empresa de telecomunicações (depois te digo qual).

Exceto por meu humilde conhecimento do Basic, nenhum de nós era usuário de micro, nem tinha muita idéia de para que servia. Para falar a verdade, tínhamos pouca experiência também em reportagem, pois tínhamos nos formado em 80. Foi um verdadeiro learning by doing, como dizem nos EU.

Nossa primeira edição foi em 1981, se não me engano agosto, saindo para circular se não me falha a memória numa feira da Sucesu, em Sampa. Nessa feira também, a Del mostrou seu clone do Apple, antes da Unitron, porém sem nunca ter levado o crédito do feito pioneiro, pois teve muitos problemas e a máquina nunca passou de um protótipo.

O tempo de preparação da revista deve ter sido, portanto, uns quatro meses, pra te responder a primeira pergunta. Sobre a idéia do título, foi uma pensata conjunta entre eu e Campos.

Em termos de linha, era muito tentativa e erro, no início. Houve debate se, além de Apple e TRS-80, deveríamos cobrir ou não os pequeninos micros Sinclair, e ganhei a causa para inclui-los, o que foi afinal uma excelente idéia, pois nos trouxe um público cheio de adrenalina, criatividade e vontade de participar. Fora isto, somente a determinação do comercial (contra a qual a redação lutou sem sucesso) de trazer na capa a foto de empresários e gerentes do setor. O moto era "name is news, and picture is even better".

Sobre as dificuldades, foram muitas. A experiência era pouca, a produção gráfica, o papel, tudo era caríssimo, e a venda de publicidade no início não era fácil. Por outro lado, a venda em bancas, que era desde o início um pré-requisito para o sucesso do projeto mostrou-se penosa, esbarrando no esquema de capatazias das bancas nas grandes cidades, e na pouca penetração fora do eixo Rio-SP.

Havia problemas de dinheiro, pois o grupo não tinha propriamente centros de receita/despesas fechados entre as unidades de negócios, e a atividade da Del drenou muitos recursos. Também no nível pessoal não foi fácil, tendo eu que enfrentar - e trabalhar muito muito extra - greve dos colegas jornalistas por atraso de pagamento, algo que havendo mais experiência e visão de mercado talvez pudesse ter sido evitado.

A receptividade no mercado, bem... eu diria que no início foi razoável. Os leitores, por um lado, reagindo muito muito positivamente. Já os ditos empresários olhavam com um misto de curiosidade e sarcasmo para aquela menina jovem, que se dizia editora da primeira revista bla bla bla... Marcar entrevistas em si não era problema, o problema era ser levada "a sério" e, algumas vezes, deixar absolutamente claro, sem ser grosseira, que não havia espaço para paqueras bobas.

Quantas cartas de colaboradores por mês???? Não sei, só sei que eram muitas, mas muitas mesmo. Em todas as publicações nas quais trabalhei depois como editora, sempre dentro da IDG, nunca vi nada chegar nem perto. Eram garotos jovens, em sua maioria, telefonavam, escreviam, vinham ao Rio especialmente para nos visitar... No início nos recusávamos a deixar uma carta sem resposta. Eu mesma levava para casa e respondia muitas no final de semana. Com o tempo isto tornou-se difícil. Mas sempre o depto cartas dos leitores foi uma coisa séria na Micro Sistemas.

Assim como o laboratório. Uma das coisas que o Wayne Green sempre falava era sobre a necessidade de um laboratório de testes. E isto fizemos. Os fabricantes, em sua maioria, se recusaram a ceder equipamentos. Com sorte, aceitavam fazer permuta por anúncios na revista, mas houve alguns que fincaram o pé, e tivemos que comprar alguns.

Consegui formar um time bom de colaboradores, que na maioria das vezes escreviam artigos e nos enviavam seus programas mais pelo prazer de participar do que pela grana, que era pouca, mas sempre existia. Isto também foi uma vitória nossa, pois na época, e até hoje em muitas revistas do setor, simplesmente se paga o artigo com a abertura do espaço para o articulista (na maioria das vezes um consultor ou empresário do setor), o que acaba levando a popular venda do seu peixe.

Nossos colaboradores eram pessoas muito legais. Muitos deles, anos depois, quando já na IDG editei a Mundo Unix (também merece estar no museu), a primeira - e infelizmente única - publicação sobre sistemas abertos (na época = Unix) do Brasil, tive a alegria de reencontrar. Não poderia me permitir listar, pois isto levaria a omissões injustas, e também porque não me recordo o nome completo de muitos. Mas vale a pena ressaltar o Orson (que fez nosso famoso curso de Basic), o Zé Roberto, Rafael, Divino. E obviamente Renato, um amigo/inimigo.

A entrada de Renato Degiovani em nosso meio, depois ficaria claro, foi um divisor de águas. Ele começou a visitar a empresa, como quem não quer nada, oferecendo ajuda, artigos e idéias. Após muito tempo e muita troca, convidei-o para ficar, pois ele era um autodidata muito capaz tecnicamente. Com o tempo, infelizmente fora da esfera técnica o seu estilo acabou me desagradando, e houve muito desgaste.

Acredito que saí da revista em 1986 ou 87, não lembro mais (se você checar isto me avisa...)*(MCI - A última edição de Alda Campos como editora responsável foi em Dez/1986. ed. nº 63), pois recebi um convite interessante de Ney Seara Kruel (até então meu amigo e concorrente, editor da Micro Mundo, da IDG) para assumir a editoria técnica do jornal Data News, hoje chamado Computerworld. Como condição, pedi que a firma me financiasse um mestrado em analise de sistemas, o que ele, promovido a diretor geral do Brasil, prontamente aceitou. Então passei à minha segunda linguagem: Cobol.

Sai da Micro Sistemas porque precisava de um novo projeto, um desafio. Escrevi o editorial "Bye, byte", que me gerou tanto feedback, que até hoje me emociono ao lembrar. Embora soubesse que a Micro Sistemas era muito querida pelos leitores, nunca imaginei que ela tivesse influenciado tanto a carreira de tanta gente. Há menos de três meses recebi o mais recente dos frequentes e-mails de algum desenvolvedor, que até hoje me contam, como se decidiram por IT por causa da MS, e me perguntam: "afinal, por que você saiu?".

Em meu lugar deixei Graça, na época já como minha subeditora, que levou o trabalho ainda por algum tempo. Depois, quando ela resolveu sair, convidei-a para ser repórter na IDG, aonde, entre idas e vindas, ela fincou residência e hoje tem participação central.

A revista continuou com Renato no comando. A impressão que tive era que, nessa época, voltou-se mais a jogos tipo adventures, que eram sua especialidade. Anos depois, Renato me procurou, e fez uma espécie de revisão de sua conduta na época. Eu também, afinal não se pode levar esses desentendimentos tão a sério.... Essas gotas do oceano...

Sai da IDG no final de 1992, para uma longa viagem ao oriente. Vivo atualmente na Alemanha com minha família. Além de manter meu contato com o mercado brasileiro através dos artigos que escrevo para a revista e-manager, da editora Telebusiness, trabalho com Web Programmierung aqui na cidade de Freiburg. Tendo o desafio, além de ASP, Javascript e Java, de dominar o alemão.... Meu carma são essas linguagens!

OK? Segue logo (desculpe o atraso) e se eu lembrar estorinhas da época, envolvendo figuras daqueles tempos, como aqueles irmãos muito loucos da Microdigital, que clonearam o Sinclair, eu volto a escrever. Por falar em Sir Clive Sinclair, já tive a honra de tomar chá com ele, em sua residência londrina... É isto aí. C'est la vie...


Capa MS Nº1
Capa da
Micro Sistemas Nº1
Out/1981
(Com dedicatória de Alda Campos)

Criado em: 06/Fev/2002
Atualizado: 04/Mar/2002
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